Rádio Conexão Católica

PAPA DOA CRUZ RECEBIDA EM CUBA A LAMPEDUSA

A cruz que o Presidente Raúl Castro presenteou o Papa Francisco quando de sua despedida da ilha caribenha em setembro passado, foi doada à Arquidiocese de Agrigento, na ilha da Sicília. A cruz, obra do artista cubano Alexis Leiva Machado, foi construída com dois pedaços de remos, simbolizando o sofrimento de tantos migrantes que morrem ao tentar atravessar o mar em busca de uma nova esperança. A cruz será levada em peregrinação até a Paróquia de São Gerlando, em Lampedusa, onde será colocada no local definitivo, em 17 de janeiro. Em entrevista concedida à Rádio Vaticano, o autor da obra disse:

“Sou uma criatura insular, nasci em uma ilha menor do que Cuba, a Ilha da Juventude, e esta é uma “condenação” da minha vida, me levou para dentro do mar e sempre tive um pensamento particular pela viagem e imigração, a nível universal. É um tema extremamente delicado e muito sensível para mim e parece que ninguém pensa nisto; somente Sua Santidade Francisco introduziu este problema na agenda dos políticos. Já em 2011 eu havia organizado uma mostra na Bienal de Veneza sobre este tema, portanto, me senti envolvido a nível pessoal quando o Pontífice, dois anos mais tarde, chamou a atenção do mundo para esta emergência”.

RV: Por que a viagem, a imigração, o fascinam tanto? Que tipo de sentimento suscitam em você?

“A viagem me fascina em todas as suas formas, física, espiritual, mental e também moral. Recordo que um dia, há dois ou três anos, eu estava em Milão para a preparação de uma exposição e ouvi que havia acontecido a enésima tragédia no mar em Lampedusa. No dia seguinte, nos jornais, nas televisões, se falava muito pouco sobre o assunto. Todos davam mais importância às últimas novidades da moda, àquilo que acontecia na Via della Spiga. Ninguém falava disto, o único a fazê-lo era o Papa. O meu trabalho, em todos estes anos, fala justamente disto: a viagem, aquela que se é obrigado a fazer para salvar-se a vida e que às vezes, custa a própria vida. Quando estas pessoas se arriscam no mar, o fazem para encontrar algo de diferente, para buscar a paz, uma paz que nunca conheceram antes, porque perderam o trabalho, a família, os afetos, aquela segurança que nós todos desejamos. Penso, portanto, que seja importante falar disto, dar voz a estas pessoas, dar a conhecer ao mundo que existe também esta realidade, não somente aquela que vivemos na nossa cômoda existência”.

RV: Que relação existe entre a tua arte e a religião?

“Minha mãe e minha avó eram muito religiosas. Meu pai se chamava Ignácio de Loyola; toda a minha família é profundamente religiosa. Outrossim, venho de um país, Cuba, de maioria católica. Eu não posso definir-me como católico, mas a meu modo me sinto religioso, aquela religiosidade laica que foi introduzida com a Revolução, a atenção em relação ao próximo. Creio que a religiosidade seja muito importante e sobretudo acredito que a humanidade sem espiritualidade não pode ir a nenhum lugar. Eu sempre pensei que Deus está em todos os lugares, se manifesta em todas as coisas e especialmente nos outros homens, no espírito dos homens, nas relações que se estabelecem entre os homens, e para mim isto é muito importante. Quando Francisco disse que o mundo não pode esquecer-se dos migrantes, porque acima de tudo eles são filhos de Deus, me senti mais próximo dele do que nunca. Penso, por fim, que não importa qual seja o Deus em que se acredita, qual seja a religião que seguimos, o importante é que não se deixe nunca de mostrar atenção pelo próximo: esta é para mim uma mensagem realmente importante. Como “criador”, como artista, sinto o dever de comunicar isto de todas as formas possíveis”.