A “Capela Musical Sistina” e o repertório do Tríduo Pascal

Propomos o artigo escrito por Monsenhor Massimo Palombella, publicado no L’Osservatore Romano, sobre o repertório musical escolhido para as celebrações litúrgicas do Tríduo Santo.

“O Tríduo Santo é o coração do ano litúrgico e nas suas celebrações está presente a produção musical mais refinada. A liturgia papal é testemunho vivo desta tradição e o imenso fundo musical presente na Biblioteca Apostólica vaticana confirma, na história documentada do século XV, a grande e alta produção realizada no tempo.

O ser maestro Diretor da ‘Capella Musicale Pontificia Sistina’ significa ter, em um certo sentido, no próprio repertório musical, os códigos presentes na Biblioteca Vaticana. Este fato coloca quem presta este serviço diante de uma dupla responsabilidade cultural: em primeiro lugar, dar vida à música que de outra forma permaneceria letra morta, e em segunda instância, tendo à disposição manuscritos e impressos antigos, o dever de uma práxis musical pertinente, que procure traduzir, com os estudos científicos e os meios hoje à nossa disposição, o sinal gráfico no sinal sonoro.

Tratar, portanto, as celebrações do Tríduo Santo dentro da reforma litúrgica que nos deu o Concílio Vaticano II, significa, junto a uma necessária escritura musical que dialogue com a contemporaneidade e olhe ao futuro, abarcar obedientemente um imenso repertório, o patrimônio cultural e musical da Igreja, que é colocado com sabedoria na liturgia com pertinência celebrativa.

O caminho realizado nestes anos levou a Sistina a abandonar definitivamente um certo modo de cantar capaz de produzir fortes e potentes sons basilicais, a um trabalho cotidiano com todos os cantores, a incidir em exclusiva com a prestigiosa marca Deutsche Grammophon e a uma frequentação diuturna dos fundos musicais presentes no Vaticano.

Isto permite hoje oferecer nas celebrações do Tríduo Santo um pesquisado repertório musical conectado com a grande tradição da profissionalidade que marcou esta instituição nos séculos XIV e XV, quando os melhores músicos da Europa militavam entre os seus cantores.

Buscando conjugar – e também declinar – o conceito de participação do povo com a presença de nobres segmentos da tradição cultural da Igreja, foram feitas escolhas voltadas a criar um círculo inclusivo entre as instâncias da última reforma litúrgica e a histórica especificidade das celebrações papais.

Na Missa crismal da próxima Quinta-feira Santa, após o canto da procissão, a introdução Iesu Christus fecit nos regnum, sobre o texto específico indicado pelo Missal Romano.

Com base na Missa de Angelis — para favorecer a fácil participação de todos (com o Sanctus alternado entre gregoriano e polifonia) — ao ofertório encontramos, também em recordação aos 450 anos do nascimento de Claudio Monteverdi, o belíssimo moteto Cantate Domino (em Giulio Cesare Bianchi [ed.] Mottetti I [Magni, Venezia, 1620]), como segundo canto de comunhão o moteto de Giovanni Pierluigi da Palestrina Ego sum panis vivus (Liber II Motectorum Quatruar Vocum [Mediolani, 1587]) e como terceiro canto de Comunhão o Ubi caritas com o refrão gregoriano e as estrofes com a polifonia de Maurice Duruflé. A procissão final será acompanhada pelo caraterístico O redemptor com as estrofes polifônicas em duplo coro.

A ação litúrgica da Sexta-feira Santa prevê o canto  do trecho Domine exaudi orationem meam em gregoriano após a primeira leitura (no lugar do Salmo Responsorial) e o famoso “graduale”, sempre em canto gregoriano, Christus factus est.

As intervenções poliofônicas na Passio serão de Tommaso Ludovico da Victoria (Officium Hebdomadae Sanctae [Romae, Apud Alexandrum  Gardanum, 1585]; Cappella Sistina 322 [1737], ff. 24v-38r).

Na adoração da Cruz, à proposta em canto gregoriano Ecce lignum crucis responderá a Sistina com Venite adoremus de nova composição. Seguirá o canto do Popule meus de Tommaso Ludovico da Victoria (Officium Hebdomadae Sanctae [Romae, Apud Alexandrum Gardanum, 1585]; Cappella Sistina 74 [1585], f. 59v) e do célebre Miserere de Gregorio Allegri na sua inédita versão original (Cappella Sistina 205-206 [1661], respectivamente ff. 50v-56r, 54v-60r) à qual si interpolarão duas estrofes na versão universalmente conhecida, com o do agudo, versão extraída – no que se refere ao primeiro coro – da publicação de Charles Burney ‘La musica che si canta annualmente nelle Funzioni della Settimana Santa nella Cappella Pontificale’ del 1771, e no que se refere ao coro dos solistas da edição de Robert Haas del 1932.

O verso da  antífona de comunhão Diviserunt sibi vestimenta mea será O vos omnes de Gesualdo da Venosa (Sacrarum Cantionum Liber Primus quorum unam septem vocibus, ceterae sex vocibus singulari artificio compositae [Vitali C., Napoli, 1603]).

Abrirá a Via Sacra o moteto Adoramus te, Christe de Orlando de Lasso (Magnum Opus Musicum Orlandi De Lasso [Monachii, Ex typographia Nicolai Hentici, 1604]) e  tudo se concluirá com o moteto Vere languores nostros de Tommaso Ludovico da Victoria (Officium Hebdomadae Sanctae [Romae, Apud Alexandrum Gardanum, 1585]; Cappella Sistina 74 [1585]; Cappella Giulia XVI.23 [1585]; Cappella Sistina 495-501 [1589], f. 11; Cappella Giulia XIII.21 [1699, 1703-1711], f. 13r-v).

Na Vigília Pascal — com base na missa gregoriana própria, a Lux et origo — ao ofertório encontramos o moteto Exsultate Deo de Giovanni Pierluigi da Palestrina (Motectorum Quinque vocibus Liber Quintus [Romae, Apud Alexandrum Gardanum, 1584]; Cappella Sistina 229-232/iv, 234/iv [1584]). O verso da antífona de comunhão Pascha nostrum será Lapidem quem reprobaverunt de nova projeto.

A Missa do dia da Páscoa — com base na Missa de angelis para favorecer a participação de todos (com o Gloria alternado entre gregoriano e polifonia) — prevê para ofertório o canto de um moteto anônimo e inédito, Christus resurgens, proveniente dos códigos vaticanos (Cappella Sistina 57 [1571], ff. 103v-109r).

O Concílio Vaticano II, nos seus preciosos documentos, nos interpela profundamente sobre o diálogo com a modernidade e a cultura. Somente uma visão superficial e ideológica deste Concílio pode chegar a afirmar que “tudo acabou”, que a grande música destinada à liturgia foi abandonada para sempre.

O desafio do Vaticano II sobre a música sacra se pode sinteticamente identificar na necessária busca de uma pertinência celebrativa do sinal musical dentro da liturgia que este Concílio nos entregou, no dever de dialogar com a modernidade, e precisamente por isto, na inteligente recepção daquilo que hoje os estudos científicos sobre o canto gregoriano e a polifonia do renascimento nos comunicaram, para encontrar caminhos que traduzam o sinal gráfico em sinal sonoro dentro da celebração litúrgica.

Buscar a pertinência estética, esforçar-se para ser “infielmente fiéis” a um mundo distante de nós, exige um estudo cotidiano, pesquisa e experimentação. Acredito que nisto consista a fidelidade àquilo que o Concílio Vaticano pede em relação ao grande patrimônio cultural da música sacra. Para restituir na liturgia um sinal sonoro antigo, e portanto precioso, capaz de continuar a ser atual e, precisamente pelo seu estar vivo, ajudar ainda hoje no caminho da fé”.