Rádio Conexão Católica

CARD. PAROLIN: PAPA NO MÉXICO, PEREGRINO DA PAZ E ESPERANÇA

A misericórdia, a justiça e a paz, assim como as migrações, a violência e a criminalidade, temas centrais que deverão marcar esta 12ª  Viagem Apostólica do Papa Francisco ao México, e que foram analisados pelo Cardeal Secretário de Estado, Pietro Parolin, em uma entrevista ao Centro Televisivo Vaticano:

Serão, antes de tudo, os temas característicos de todas as viagens do Santo Padre. E diria ainda mais: característicos, típicos de seu Pontificado, como o tema da misericórdia, certamente, o tema da justiça, o tema da paz, o tema da esperança. Depois, o Papa se concentrará também em temas que são próprios do país que visita, para ressaltar – por exemplo – a força da fé deste povo, a sua extraordinária cultura, a sua extraordinária devoção mariana, a cultura e a riqueza, também, das populações que o formam, a partir das populações indígenas; e certamente tocará também o tema da criminalidade, o tema do narcotráfico, o tema da pobreza… Imagino também que o Papa voltará sobre aqueles que foram os pontos principais da viagem de Bento XVI em 2012, quando se concentrou bastante no tema da dignidade da pessoa e da liberdade religiosa, levando em consideração, que deste ponto de vista, o México teve também uma história muito, muito conturbada, com a presença de um forte laicismo que não permitiu desenvolver uma relação serena com a Igreja. Neste sentido, me parece importante sublinhar que, pela primeira vez, um Papa entrará no Palácio Nacional, que é a sede oficial da autoridade política mexicana do Presidente da República.

CTV: O próprio Papa Francisco anunciou esta viagem em 12 de dezembro passado, Festa Litúrgica da Virgem de Guadalupe. Disse na ocasião: “Em 13 de fevereiro estarei no Santuário para venerá-la e confiar a ela o caminho do povo americano”. Portanto, a viagem terá também um caráter fortemente mariano?

Bem, se existe uma viagem que tem uma forte conotação mariana, uma forte dimensão mariana, penso que seja precisamente esta viagem ao México, porque todos sabemos como Nossa Senhora de Guadalupe está precisamente no centro e no coração da história e da vida dos mexicanos. Eu mesmo pude constatar – e constatava isto com uma grande comoção no coração – quanta veneração, quanta confiança, quanto abandono existe na Virgem de Guadalupe, aquela que os mexicanos chamam “la Morenita del Tepeyac”. Eu acredito que o Papa, nesta dimensão mariana, repetirá frequentemente as palavras que Nossa Senhora disse a Juan Diego: “Por que tens medo? Não estou aqui, eu, que sou a tua mãe?”. Esta é uma mensagem dirigida ao México e  dirigida também a toda a América latina e – podemos dizer – a todo o mundo, nestas circunstâncias tão difíceis e tantas vezes dramáticas que está vivendo hoje”.

CTV: O lema desta peregrinação é “Papa Francisco: missionário da misericórdia e da paz”. Como se insere esta viagem apostólica no Ano Santo Extraordinário que estamos vivendo?

Me parece que a presença do Papa no México quer ser – como por dizer – uma ajuda ao país, à Igreja do país, para redescobrir o viver, na vida cotidiana, o aspecto da misericórdia, o anúncio e o testemunho da misericórdia. Me parece importante sublinhar que o Papa se encontrará com tantas categorias de pessoas, para chamar a todos a este compromisso, a este compromisso de traduzir a misericórdia na vida cotidiana, a partir dos políticos, dos povos indígenas. O Papa visitará depois uma prisão, visitará um hospital, irá se dirigir às famílias, aos jovens, ao mundo do trabalho, e – naturalmente – aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas. Para todos será realmente um chamado a serem misericordioso, como misericordioso é o Pai dos Céus, que depois é o tema do Jubileu da Misericórdia”.

CTV: O Papa sempre estende os próprios braços para as pessoas, sobretudo aquelas em dificuldades. No México, neste sentido, encontrará tantas formas de dificuldades. Quais são os desafios da Igreja local, os horizontes de missão?

Certamente, o desafio de denunciar o mal que está presente, levantar a voz contra todos os fenômenos negativos, partindo da corrupção, do narcotráfico, da violência, da criminalidade, que impedem o país de avançar rapidamente no caminho do progresso material e espiritual. E depois, de ser a boa-samaritana, em relação às tantas dificuldades de pessoas que sofrem e se encontram em necessidade: pensemos ao fenômeno das migrações e no impacto que tem sobre as famílias. A Igreja está fazendo muito a este nível e deverá continuar a fazer muito. E depois permanece sempre a missão principal da Igreja que é a de educar as consciências, no sentido de tornar sensibilizar diante dos fenômenos negativos: por exemplo, denunciar e educar contra uma idolatria do dinheiro, que leva a não respeitar nenhum valor, nem mesmo o da vida humana, e depois – também e sobretudo – em anunciar o Evangelho, tendo presente que esta é a melhor forma para combater contra todos estes fenômenos negativos. Me parece que neste contexto se inserem as atividades e o compromisso e a missão da Igreja no México”.

CTV: O Papa Francisco – como dissemos – pronunciou-se diversas vezes contra os dramas, como as migrações forçadas, o tráfico de armas e de drogas, também em sedes internacionais importantes, como o discurso proferido nas Nações Unidas, dramas que todos os dias escrevem páginas de sofrimento…

O Papa nos dá um grande exemplo: o de continuar, de não ceder, de não resignar-se diante do mal, que continua a propagar-se e a mostrar seus efeitos no mundo de hoje. Eu gostaria de sublinhar uma coisa, usando a imagem que usei para a Igreja: o Papa se inclina como um bom samaritano sobre estas chagas. Não é tanto uma denúncia, mas um assumir de coração estas situações negativas e convidar as pessoas a lutar contra estes fenômenos e sobretudo a mudar o coração. Esta, portanto, é uma atitude sempre de misericórdia: não para justificar – evidentemente – o mal, mas para mudar os corações e para lutar contra o mal. E, certamente, o Papa irá salientar – e esta será uma coisa bonita – também todas as riquezas do México, que são muitas. Realmente, quem viveu no México pode dizer que se trata de um país – ousaria dizer – maravilhoso, com uma variedade e uma riqueza de cultura, de população, de recursos, que é realmente grande. E portanto, precisamente baseado em todos estes dons que o México recebeu do Senhor, pode encontrar também a coragem e o caminho para enfrentar e combater os males, para progredir sempre mais em direção a metas de progresso e de bem-estar para todos”.

CTV: Um sinal de grande esperança, seguramente é o anúncio de sexta-feira passada, sobre o encontro em Cuba entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill…

O fato de que o Papa e o Patriarca de todas as Rússia se encontrem, é um grande sinal de esperança. É realmente um momento que dá coragem, que dá ânimo para continuar, buscar construir sempre mais relações de entendimento, de encontro, de diálogo: temas sobre os quais o Papa insiste tanto. Também este encontro se coloca – da parte do Papa e seguramente também da parte do Patriarca – precisamente nesta vontade de entendimento e de encontro, em modo tal que possa contribuir juntos, quer para o caminho ecumênico – este encontro terá certamente um grande impacto no caminho ecumênico – quer a nível mais geral do mundo e da sociedade atual. Portanto, o vemos realmente com uma grande esperança e sobretudo o confiamos à oração, para que possa ser eficaz no sentido que indicava”.