Rádio Conexão Católica

PAPA SE ENCONTRA COM SACERDOTES DO CLERO DE ROMA

O Papa Francisco recebeu, na manhã de ontem, quinta-feira, (19), na Sala Paulo VI, no Vaticano, os Párocos da Diocese de Roma.

Segundo o Vigário do Papa para a Diocese de Roma, Cardeal Agostino Vallini, no encontro anual com os Párocos, o Santo Padre pronunciou um discurso espontâneo e respondeu a algumas perguntas dos sacerdotes.

O tradicional encontro do Bispo de Roma com o Clero Romano teve como tema central a “ars celebrandi”, a arte de celebrar, ou seja, de modo particular sobre a homilia na celebração Eucarística. O assunto tratado refere-se à Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”.

Com efeito, os sacerdotes se prepararam para este encontro anual com o Papa mediante a leitura de um texto que o então Cardeal Bergoglio fez, em 2005, aos membros da Congregação para o Culto Divino, sobre a “Ars celebrandi”.

O Papa Francisco de improviso, delineou os contornos dentro dos quais deve se mover o sacerdote que lida com o esforço da pregação dominical. Sobre cuja eficácia os fiéis têm mais de um comentário a fazer: “Um padre, uma vez, tinha ido se encontrar com os seus pais, e o seu pai estava contente porque tinha encontrado uma Igreja onde se faz a missa sem homilia”, disse o pontífice ao auditório reunido na Sala Paulo VI.

E isso não deve acontecer. O que é preciso fazer é “recuperar o fascínio da beleza, o estupor tanto de quem celebra, quanto das pessoas. É preciso entrar em uma atmosfera espontânea, normal, religiosa, mas não artificial”.

Só assim, acrescentou, “recupera-se o estupor, aquilo que se sente no encontro com Deus”. Estupor que “nos atrai e nos deixa em contemplação” e, “contra o estupor, vai todo tipo de artificialidade”. É indispensável – na opinião do papa – “pregar normalmente diante de Deus, com a comunidade”.

Não ao padre showman

Francisco ressaltou a inutilidade de sermões muito longos ou muito complexos: “Quando vemos um sacerdote que prega de modo sofisticado ou artificial, que abusa dos gestos, não é fácil que se dê esse estupor, essa capacidade de fazer entrar no mistério”.

Celebrar, ao invés, “é entrar e fazer entrar no mistério. É simples, mas é isso. Se sou excessivamente rígido, não faço entrar no mistério”.

Bergoglio citou o exemplo da sua sobrinha, professor de Letras na Universidade: “Ela vive com a sua família entre duas paróquias. Em uma paróquia, há um padre bom, que prega bem, e na outra há um sacerdote bom, mas que não tem o carisma da pregação. Às vezes, eu a telefono chamada para saber como está, e uma vez ela me disse: ‘Ouvi uma bela lição de 40 minutos sobre a Summa de São Tomás. Belíssima’. Foi para a escola”.

Mas o padre que ama um pouco demais a exibição durante a Missa também acabou na mira do papa: “Se sou um showman, não faço entrar no mistério”.

Leituras aconselhadas

“Há algo na homilia que porta consigo a graça, como se fosse um sacramental forte, e há algo de provisório, que depende de quem prega”, observou Francisco, dando também alguns conselhos para a leitura: “Dois livros que me fizeram muito bem, um de Domenico Grasso sobre a pregação, um livro correto na teologia, e o outro de Hugo Rahner, que se diferencia do irmão Karl pelo fato de que escreve claramente: ele dizia que queria traduzir as obras do seu irmão ao alemão…”.

A crítica do Cardeal Ratzinger

Por fim, Francisco lembrou uma anedota curiosa que remonta justamente a 2005, quando foi chamado para falar na Congregação para o Culto Divino: “O cardeal Meisner me criticou por algumas coisas, e, então, o cardeal Ratzinger me disse que faltava uma coisa na homilia: sentir-se diante de Deus. E ele tinha razão. Eu não tinha falado disso”.

Em tal pronunciamento o futuro Papa ressaltava a necessidade de um sacerdote meditar sobre o sentido do mistério da celebração Eucarística, para depois comunicá-lo à comunidade de fiéis, de modo a conformar-se com ele. Isto, porém, dizia o Cardeal Bergoglio, “requer uma fé viva e nutrida e um firme espírito de oração.”

No entanto, disse o então Cardeal, uma firme vida de oração, acompanhada de uma “leadership” humilde, mas incisiva, pode levar o povo de Deus a intuir, que ele é um sacerdote que sabe viver a liturgia e, sobretudo, revestir-se do Senhor Jesus.

O futuro Papa Francisco frisava ainda, em seu pronunciamento, que a celebração Eucarística não é um “ato de caridade”, mas um “ato de justiça” que o pastor faz ao seu rebanho. Logo, a sua homilia não deve ser, simplesmente, uma leitura, um anúncio ou uma pregação, mas uma oração sincera, que toca o coração.

Enfim, o Cardeal Bergoglio sugeria evitar alguns comportamentos como aquele de um padre “showman”, que investe suas energias em uma espécie de animação superficial; ou então um padre com a “síndrome de Marta”, ou seja, sempre ocupado com tantas atividades, que não dispõem de tempo suficiente para uma digna celebração da Eucaristia.

Eis o que nos disse o Cardeal Vigário para a Diocese de Roma, Agostino Vallini, a respeito da audiência do Papa com o clero romano,  que em nome dos sacerdotes presentes, fez também uma saudação ao Papa.

Foi uma manhã muito bela e enriquecedora, que catalizou a atenção dos sacerdotes presentes neste encontro, aos quais se acrescentam sempre outros sacerdotes e estudantes de Universidades Pontifícias. O Santo Padre ressaltou em suas palavras espontâneas que o sacerdote deve estar ciente de ser ministro de Cristo, colaborador da experiência do mistério divino, mediante uma profunda vida espiritual. A celebração eucarística de um sacerdote deve brotar de uma vida de fé e do serviço ao povo de Deus, evitando certos extremismos. Este encontro foi uma ocasião para aprofundar e melhorar a qualidade do nosso ministério sacerdotal”.