Rádio Conexão Católica

PE. ZOLLNER SOBRE SPOTLIGHT: CORAGEM DE ENCARAR O PROBLEMA DE FRENTE

“Papa Francisco: é hora de proteger as crianças e restaurar a fé”. Assim manifestou-se Michael Sugar, Produtor do filme “O caso Spotlight”, vencedor do Oscar de melhor filme, ao retirar a estatueta na noite de 28 de fevereiro no palco da Academy Awards. O filme é dedicado aos jornalistas do Boston Globe, que há 14 anos revelaram o acobertamento de numerosos casos de abusos contra menores cometidos por Sacerdotes nos Estados Unidos. A este respeito a Rádio Vaticano entrevistou o jesuíta Padre Hans Zollner, membro da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores e Presidente do Centro para a Proteção de Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana:

Se vê claramente que, quer o produtor como todos aqueles que estiveram envolvidos na produção do filme, trabalharam para transmitir esta mensagem e é uma mensagem ligada com aquilo que o filme conta, um chamado para que a Igreja faça aquilo que desde 2002 – contemporaneamente a estes acontecimentos que o filme conta – começou a fazer. Desde o final dos anos 90, o Cardeal Ratzinger, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, havia percebido que a Igreja não podia mais, nem tolerar estes abusos e nem o acobertamento deles por parte dos Bispos. E assim, Joseph Ratzinger, depois como Papa Bento, deu grandes passos para tornar a Igreja uma instituição transparente e comprometida na luta contra os abusos. Depois, o Papa Francisco seguiu na linha do Papa Bento, fortalecendo a legislação da Igreja, instituindo a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores. O Papa já colocou em prática algumas medidas e aguardamos ulteriores progressos nesta mesma linha, que darão certamente a mensagem clara de que a Igreja Católica na sua liderança se deu conta da gravidade da situação e quer e deve continuar a luta pela justiça e para que não existam mais vítimas de abuso”.

RV: Portanto, podemos dizer que desde os acontecimentos que foram narrados pelo filme, muito foi feito pela proteção dos menores, pela Santa Sé e pelas Igrejas locais em todo o mundo?

Sim, aquilo que a Santa Sé fez é muito evidente: temos outras normas, temos leis mais severas, temos as cartas circulares da Congregação para a Doutrina da Fé que pedem a todas as Conferências Episcopais para enviarem os esboços de suas linhas de ação sobre como encontrar as vítimas, o que fazer com os que abusaram, com trabalhar para a prevenção dos abusos. Muito foi feito, por parte da Santa Sé, e depois também por algumas Igrejas locais. Motivo pelo qual, um filme como este e também as palavras pronunciadas na premiação, certamente dão um ulterior impulso a este nosso trabalho que, por exemplo, iniciamos a partir de 2012 aqui na Gregoriana com encontro internacional, o Simpósio internacional “Rumo à cura e à renovação”, que contou com a participação de 110 Bispos de todas as Conferências Episcopais do mundo e que foi um primeiro passo também para as áreas da África e da América Latina, onde o tema, naquela época, ainda não havia chegado. Com a instituição do nosso  “Centre for Child Protection”, o Centro para a proteção dos Menores, queremos trabalhar para construir pouco a pouco uma competência local, isto é, pessoas que saibam como reagir, como criar espaços seguros para as crianças e os adolescentes….”.

RV: Que acolhida teve este filme por parte dos homens da Igreja que foram – e estão – comprometidos em enfrentar os abusos sexuais?

Uma voz muito autoritativa que se pronunciou é a do Arcebispo de Malta, Dom Charles Scicluna, que por dez anos foi Promotor de Justiça e foi a pessoa empenhada na investigação destes crimes cometidos por Sacerdotes. Ele, há alguns dias, disse publicamente que recomendaria a todos, também aos Bispos, para assistirem este filme. O mesmo disse também um Bispo australiano… Existe portanto um grande apreço pelo filme e obviamente também um apreço pela mensagem e o modo como é transmitida a mensagem. Estes Bispos recomendam aos seus irmãos para assistirem este filme, portanto é um forte convite para refletir e a levar a sério a mensagem central, isto é, que a Igreja Católica pode e deve ser transparente, justa e comprometida na luta contra os abusos e que deve comprometer-se para que não se verifiquem mais. É importante entender que devemos mudar o nosso comportamento que em italiano pode ser expresso com aquela famosa palavra: “omertá”. Não falar, querer resolver tudo varrendo prá baixo do tapete, esconder-se e pensar que tudo passará. É necessário entender que não passará: devemos nos dar conta de que devemos ter muita coragem e capacidade de enfrentar as coisas, encarando-as de frente, ou um dia, cedo ou tarde, seremos obrigados a fazê-lo. E penso que esta seja uma das mensagens centrais deste filme”.