Quarta-feira de Cinzas: jejum, penitência e oração

A Igreja Católica, começa com a Quarta-feira de Cinzas, o seu grande retiro anual. O tempo da Quaresma vai de 4ª. Feira de Cinzas até a Missa da Ceia do Senhor, exclusive. A Quaresma é o tempo para preparar a celebração da Páscoa. Ensina a Sacrosanctum Concilium no número 109: “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica esclarece-se melhor a dupla índole do tempo quaresmal que, principalmente pela lembrança ou preparação do Batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal”.

A convite do profeta Joel, somos chamados a uma profunda meditação. Isso porque a Quaresma é o tempo de fugir da prisão. Os corações rasgados buscam o Senhor, razão e motivo de sua vida. Em atitude profunda de veneração e recolhimento, procuramos, de forma mais eficaz, trilhar o caminho do deserto, confiantes em que nossa terra prometida se avizinha pela graça e dom do Redentor. Joel(Jl 2,12-18) é provavelmente um sacerdote-profeta, que vive no Templo, depois do exílio. Fiel ao serviço da Casa de Deus, exorta o povo, que passa por uma grave carestia provocada por uma invasão de gafanhotos (1, 2-2, 10), à oração e à conversão. O próprio culto, no templo, tinha cessado (1, 13.16). O profeta, que sabe ler os sinais dos tempos, anuncia a proximidade do “dia do sennot”, e convida o povo ao jejum, à súplica e à penitência (2, 12.15-17). “Convertei-vos”, grita o profeta. O termo hebraico subjacente é schOb que significa arrepiar caminho, regressar. O povo que virara costas a Deus, devia voltar novamente o coração para Ele, e retomar o culto no templo, um culto autêntico, que manifestasse a conversão interior. O povo pode voltar novamente para Deus, porque Ele é misericordioso (v. 13), e, também, pode mudar de ideia e voltar atrás (v. 14). Um amor sincero a Deus, uma fé consistente, e uma esperança que se torna oração coral e penitente, darão ao profeta e aos sacerdotes as devidas condições para implorarem a compaixão de Deus para com o seu povo.

Na segunda leitura(2Cor 5,20-6.2) “Reconciliai-vos com Deus”, é o apelo de Paulo. A reconciliação é possível, porque essa é a vontade do Pai, manifestada na obra redentora do Filho e no poder do Espírito que apoia o serviço dos apóstolos. O v. 21 é o ponto alto do texto, pois proclama o juízo de Deus sobre o pecado e o seu incomensurável amor pelos pecadores, pelos quais não poupou o seu próprio Filho (cf. Rm 5, 8; 8, 32). Cristo carregou sobre si o pecado do mundo e expiou-o na sua própria carne. Assim, podemos apropriar-nos da sua justiça-santidade. O Inocente tornou-se pecado para nos pudéssemos tornar justiça de Deus. E, agora, o tempo favorável para aproveitar essa graça: deixemo-nos reconciliar com Deus. O termo grego indica a transformação da nossa relação com Deus e, por consequência, da nossa relação com os outros homens. Acolhendo o amor de Deus, que nos leva a vivermos, não já para nós mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por nós (w. 14s.), podemos tornar-nos nova criação em Cristo (5, 18).

No Evangelho(Mt 6,1-6.16-18) Jesus pede aos seus discípulos uma justiça superior à dos escribas e fariseus, mesmo quando praticam as mesmas obras que eles.: “Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles”. Agora aplica esse princípio a algumas práticas religiosas do seu tempo: a esmola, o jejum e a oração. Há que estar atentos às motivações que nos levam a dar esmola, a orar, a jejuar, porque o Pai vê o que está oculto, os sentimentos profundos do coração. Se buscamos o aplauso dos homens, a vanglória, Deus nada tem para nos dar. Mas se buscamos a relação íntima e pessoal com Ele, a comunhão com Ele, seremos recompensados. Se não fizermos as boas obras com reta intenção somos pessoas ímpias, de acordo com o uso hebraico do termo. Com São Mateus, aprendemos de Jesus a ficar atentos, a fim de que os sinais externos expressem verdadeiramente o que se passa em nosso coração e jamais possam ser motivo de vanglória.

A esmola, a oração e o jejum são sinais exodais que nos recordam o passado e abrem nossa mente e corações para a coragem de refazer o caminho ou mesmo de iniciar um caminho novo, em que a presença e a força do Senhor vão ao nosso lado e não nos deixar tropeçar. Acolhamos este tempo novo, como tempo maravilhoso da graça do Senhor, que, uma vez mais, vem ao nosso encontro.

A Liturgia da Palavra dá-nos, hoje, a orientação correta para vivermos frutuosa mente a Quaresma, tempo favorável de graça, dia de salvação. Penitência e arrependimento não são caminho de tristeza, de depressão, mas caminho de luz e de alegria, porque, se nos levam a reconhecer a nossa verdade de pecadores, também nos abrem ao amor e à misericórdia de Deus.

O jejum, a penitência e o oração no tempo da Quaresma nos farão viver a retidão interior garantida pela bondade de Deus.

 

Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)