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Bispos franceses: política não seja refém de ambições desmedidas

“Se tomamos a palavra hoje, é porque amamos nosso país e estamos preocupados com a sua situação.” Inicia-se desse modo a Carta que o Conselho permanente dos bispos franceses dirige “aos habitantes do país”, intitulada “Num mundo que muda, reencontrar o sentido da política”.

Num texto subdividido em dez parágrafos, o episcopado francês passa em resenha, ponto por ponto, os aspectos problemáticos que estão colocando a vida da nação a duras provações: crise econômica e recessão, tensões sociais, desemprego e sentimento de injustiça, diferença cultural e integração, jovens e derivas jihadistas, educação e a questão da segurança.

Não permanecer surdos ou indiferentes às situações difíceis que o país está vivendo

“É preciso ser surdos ou cegos para não dar-se conta do cansaço, das frustrações, dos medos e também do ódio que alberga uma parte importante dos habitantes do nosso país e que expressam um profundo desejo de mudança”, escrevem os bispos.

“É preciso ser indiferentes ou insensíveis para não ser tocados pelas situações de precariedade e exclusão em que muitos se encontram em nosso território nacional”, observam.

Política busque o bem comum

Por sua natureza e vocação, a política é chamada a buscar “o bem comum”, a fazer “prevalecer o interesse geral sobre o interesse de parte”, reitera a Conferência Episcopal Francesa (CEF).

Mas a realidade é diferente: os bispos descrevem uma política refém de “ambições pessoais desmedidas, manobras e cálculos eleitorais, promessas não mantidas, visões totalmente desvinculadas da realidade, ausência de projeto e visão a longo prazo, comportamentos de parte e demagógicos”.

Superar os paradoxos sociais e responder às expectativas da população

O documento episcopal “prepara certamente para as próximas eleições presidenciais, mas sua pertinência permanece absolutamente válida para além das eleições. É um convite a redescobrir o sentido do político que deve ter um projeto. Somente quem tem uma visão de sociedade pode responder às expectativas do povo e superar os muitos paradoxos que a sociedade francesa está vivendo” – explica à agência Sir o bispo de Saint-Denis e membro do Conselho permanente, Dom Pascal Delannoy.

Os bispos quiseram provocar “uma reflexão de fundo sobre o lugar da política hoje em nossa sociedade”, que nos dias atuais parece “sempre mais concentrada em administrar os problemas econômicos e financeiros e incapaz de responder às expectativas mais profundas do povo”, acrescenta o prelado francês.

Não aos extremismos, investir no diálogo e confrontação pacífica

Em seguida, os bispos franceses evidenciam que a crise política é, em primeiro lugar, crise da palavra que muitas vezes se transforma em “mentira, corrupção”.

“O confim entre quem não acredita mais na política e se desinteressa pela vida pública e quem, cheio de ressentimento, toma o rumo da deriva extremista, torna-se cada vez mais sutil”, lê-se no documento.

Esse “é o paradoxo de viver numa sociedade que dispõe de muitos meios comunicativos, mas em que as pessoas têm cada vez mais dificuldade de dialogar entre si. Não há mais capacidade de confrontação, diálogo, palavra e divergências de opinião e pensamento, ao invés de serem acolhidas e ouvidas, acabam de maneira conflituosa”, acrescenta Dom Delannoy.

É preciso o compromisso de todos

Daí, o convite da Conferência Episcopal Francesa: “Cada um, naquilo que lhe compete, é responsável pela vida e pelo futuro de nossa sociedade. Isso requer coragem e audácia, qualidades que jamais faltaram no coração de nosso país”.

Por fim, concluem: “As verdadeiras soluções para os profundos problemas de nossa época não chegarão nem da retomada econômica e financeira, embora importante, nem dos gestos e atitudes de quem quer que seja. Chegarão da escuta pessoal e coletiva das necessidades mais profundas do homem, e do compromisso de todos”.